Tem dias que parece que a culpa anda de mãos dadas com a gente desde o momento em que abrimos os olhos. Culpada por trabalhar fora. Culpada por querer ficar em casa. Por não estar a fim de sair passear. Por passar o dia inteiro com o filho e ainda achar que não foi suficiente.
Essa culpa que tanta gente sente, mas pouca gente fala, se instala de um jeitinho silencioso, quase invisível. E a gente vai achando que é normal, que toda mãe sente isso mesmo, que faz parte.
“E se eu te dissesse que não é sua? Que essa culpa não nasceu com você?”
A verdade é que essa culpa foi ensinada. Ela é filha das expectativas impossíveis que colocaram sobre nós. Nos ensinaram que mãe de verdade é aquela que dá tudo, se anula, não reclama, não falha — quase como se o amor de mãe precisasse ser provado todos os dias com exaustão e sacrifício.
Tentei ser a mãe perfeita. Presente, disposta, incansável. E mesmo assim, a culpa vinha. Lembro de uma vez, durante uma viagem no verão europeu, em que decidi não levar a comida feita em casa pro meu filho, com medo de que estragasse. Achei mais seguro oferecer uma papinha pronta. E mesmo tendo feito o melhor que pude naquele momento, me culpei. Me questionei se estava sendo negligente, se ele merecia mais. Hoje eu levo isso com mais leveza. Mas antes…
E é isso que a gente precisa lembrar: somos humanas. Com falhas, limites e necessidades próprias.
A psiquiatra Alexandra Sacks, que cunhou o termo matrescência, diz que a transição para a maternidade é tão intensa quanto a adolescência. Só que, diferente dela, ninguém nos prepara. Esperam que saibamos tudo, que sintamos tudo, que façamos tudo. E quando a realidade não acompanha essa idealização, vem ela: a culpa.
É humano. E necessário.
Olhe com carinho para essa culpa. Pergunte-se: de onde ela veio? Quem foi que colocou essa exigência em mim? Será que ela realmente me pertence?
Você não está sozinha. E também não precisa carregar isso sozinha. A culpa não mede o tamanho do seu amor.
O amor de verdade começa quando você se acolhe com a mesma ternura com que acolhe seu filho. Quando você aprende a ser gentil com a mulher que você ainda é, mesmo depois da maternidade.
“Você está fazendo o melhor que pode. E isso é mais do que suficiente.”
Referência: Sacks, A. (2017). The Birth of a Mother. The New York Times.
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